terça-feira, 5 de junho de 2007

As intermitências da adolescência

Lisboa, 21 de Setembro

Querida Marta,

Amanhã é o dia de anos do meu pai. Tenho andado a pensar no que hei-de oferecer-lhe, mas não cheguei a nenhuma conclusão. Esta tarde, estive quase uma hora sentada na minha lua, a baloiçar e a dar voltas à cabeça para ver se tinha alguma ideia original. Ele pediu à minha mãe para não convidar ninguém, pois logo a seguir ao jantar tem de voltar para o hospital. Ela ficou chateadíssima e disse que já tinha tudo programado. “Então, desprograma, Bé. Não devias ter feito convites sem me consultares…”, foi tudo o que ele disse. Pela primeira vez há muito tempo, senti uma certa pena da minha mãe e, como quem tem pena é galinha, considero que tive um sentimento galináceo, o que me irrita um bocado.
Voltando ao assunto da prenda, a melhor ideia que me ocorreu foi oferecer-lhe uma moldura com uma fotografia que a avó Ju me tirou o ano passado na praia. É a única fotografia decente que tenho, isto é, não estou com cara de débil mental, como nas outras. Pode ser que ele goste e se lembre um pouco de mim quando olhar para a mesa que tem no consultório… De qualquer maneira, resolvi escrever-lhe um cartão de parabéns e, sem eu saber como nem porquê, saiu-me uma coisa que nem sei se se pode chamar poema. É assim:





Às vezes cruzamo-nos no corredor
E eu acendo a luz para te ver melhor.
Jantamos juntos na noite de Natal
Porque senão até parecia mal.
Deito-me sempre sem te ver chegar
E quando acordo já foste trabalhar.
Mudei de penteado e nem reparaste
Chamei-te muitas vezes e nem para trás olhaste.
Apesar de tudo, não quero mais nenhum
És um pai fantasma, mas pai há só um…






Será que é duro demais? Fui sincera e pronto. Amanhã, quando a mesa estiver pronta para o jantar, ponho-lhe o cartão debaixo do guardanapo. Não quero que ele tenha uma indigestão, mas, se ficar um bocado maldisposto, só lhe faz bem. Para aprender!
Vou ao centro comercial comprar uma moldura. Tem de ser verde para condizer com o consultório.
Um beijo da
Joana




Maria Teresa Maia Gonzalez, A Lua de Joana, Verbo

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