Lisboa, 21 de Setembro
Querida Marta,
Querida Marta,
Voltando ao assunto da prenda, a melhor ideia que me ocorreu foi oferecer-lhe uma moldura com uma fotografia que a avó Ju me tirou o ano passado na praia. É a única fotografia decente que tenho, isto é, não estou com cara de débil mental, como nas outras. Pode ser que ele goste e se lembre um pouco de mim quando olhar para a mesa que tem no consultório… De qualquer maneira, resolvi escrever-lhe um cartão de parabéns e, sem eu saber como nem porquê, saiu-me uma coisa que nem sei se se pode chamar poema. É assim:
Às vezes cruzamo-nos no corredor
E eu acendo a luz para te ver melhor.
Jantamos juntos na noite de Natal
Porque senão até parecia mal.
Deito-me sempre sem te ver chegar
E quando acordo já foste trabalhar.
Mudei de penteado e nem reparaste
Chamei-te muitas vezes e nem para trás olhaste.
Apesar de tudo, não quero mais nenhum
És um pai fantasma, mas pai há só um…
Será que é duro demais? Fui sincera e pronto. Amanhã, quando a mesa estiver pronta para o jantar, ponho-lhe o cartão debaixo do guardanapo. Não quero que ele tenha uma indigestão, mas, se ficar um bocado maldisposto, só lhe faz bem. Para aprender!
Vou ao centro comercial comprar uma moldura. Tem de ser verde para condizer com o consultório.
Um beijo da
Joana
Maria Teresa Maia Gonzalez, A Lua de Joana, Verbo
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